29.5.06
Memórias.
Os cheiros me invadem sem perguntar e me carregam pra longe no tempo, para uma época específica e todos os sentimentos de então, devastando as barreiras e linhas do tempo. Nessas horas, abro bem as narinas e aspiro o ar com força, numa tentativa de viver tudo de novo com mais força.
É um processo meio masoquista, isso de reviver emoções superadas, mas, ao mesmo tempo, irresistível e inevitável. E é assim também que me pego sorrindo, boba e sozinha num quarto. Você nunca sabe ao certo aonde está sendo levada e o melhor mesmo é se deixar ir. Acontece que os cheiros estão em todo lugar: dentro de livros, de perfumes antigos, em alguma comida, em uma roupa guardada demais ou numa marca de desodorante que tinha sido esquecida.
Todos os momentos e todas as pessoas importantes têm um cheiro bem definido na minha memória, às vezes mais definidos que as imagens ou sons. Na verdade, nunca sei se as minhas memórias olfativas são derivadas de coisas reais ou apenas da minha imaginação, de suposições, romantismo e especulação. Metade da minha vida só existe na minha cabeça e a outra metade é toda alterada para ficar mais fácil de aguentar.
26.5.06
Bipolaridade.
Até bem pouco tempo conhecida como psicose maníaco-depressiva, a doença bipolar do humor é caracterizada por períodos de um quadro depressivo, geralmente de intensidade grave, que se alternam com períodos de quadros opostos à depressão, isto é, a pessoa apresenta-se eufórica, com muitas atividades, às vezes fazendo muitas compras ou efetuando gastos financeiros desnecessários e elevados, com sentimento de onipotência, quase sempre acompanhados de insônia e falando muito, mais que seu habitual. Esse quadro é conhecido como mania.
Existem três outras formas através das quais a doença bipolar do humor pode se manifestar, além de episódios bem definidos de mania e depressão.
Uma primeira forma seria a hipomania, em que também ocorre estado de humor elevado e expansivo, eufórico, mas de forma mais suave. Um episódio hipomaníaco, ao contrário da mania, não é suficientemente grave para causar prejuízo no trabalho ou nas relações sociais, nem para exigir a hospitalização da pessoa.
Uma segunda forma de apresentação da doença bipolar do humor seria a ocorrência de episódios mistos, quando em um mesmo dia haveria a alternância entre depressão e mania. Em poucas horas a pessoa pode chorar, ficar triste, sentindo-se sem valor e sem esperança, e no momento seguinte estar eufórica, sentindo-se capaz de tudo, ou irritada, falante e agressiva.
A terceira forma da doença bipolar do humor seria aquela conhecida como transtorno ciclotímico, ou apenas ciclotimia, em que haveria uma alteração crônica e flutuante do humor, marcada por numerosos períodos com sintomas maníacos e numerosos períodos com sintomas depressivos, que se alternariam. Tais sintomas depressivos e maníacos não seriam suficientemente graves nem ocorreriam em quantidade suficiente para se ter certeza de se tratar de depressão e de mania, respectivamente. Seria, portanto, facilmente confundida com o jeito de ser da pessoa, marcada por instabilidade do humor.
12.4.06
...
É de mais lacunas para o infinito que eu preciso. Entrelinhas maiores que as próprias linhas, folhas em branco, desenhos de nuvens pedindo para serem descobertos. A verdade é que quando o mundo se faz fechado demais, logo me dá uma canseira e pulo a página do livro.
Teimosia.
-Me faz feliz? Pode ser?
-Acho que não...
-Então tá. E agora eu vou embora.
-Tá.
Cinco minutos depois ela se vira e, com lágrimas nos olhos, pergunta novamente:
-Tem certeza que não dá?
-Tenho.
-Então tá.
Ela continua parada ao lado dele.
-Acho que não...
-Então tá. E agora eu vou embora.
-Tá.
Cinco minutos depois ela se vira e, com lágrimas nos olhos, pergunta novamente:
-Tem certeza que não dá?
-Tenho.
-Então tá.
Ela continua parada ao lado dele.
15.3.06
Globalização.
Jantar fora sempre foi dos prazeres mais torturantes para mim, o melhor exemplo da angústia sartriana diante das escolhas descartadas. Eu adoro comer e nunca sei ao certo o que quero, tantas possibilidades me deixam desesperada, chego até a sentir saudade do feijão com arroz ou sopa de todo dia.
Hoje foi especialmente difícil. Fui jantar com a minha mãe num barzinho da moda no centro da cidade. Surpresa grande tive ao ver que o cardápio passeava do yakissoba, popular macarrão chinês, até o babangush, obscuro sanduíche árabe, passando, como não poderia deixar de ser, pelo bom e velho arrumadinho pernambucano. A minha mãe, mulher forte e decididade que é, logo escolheu e o garçon começou a olhar para mim. E a olhar, a olhar... Depois de alguns minutos de silêncio tenso, disse que ia escolher depois. Juro que quase decorei aquele cardápio tentando decidir o que ia comer. Acabei me decidindo pela opção mais comum e não-original: uma empada de frango, faz favor, e com muito ketchup.
Quando a comida chegou comecei a pensar como essa coisa de viver numa aldeia global dificulta as coisas. A minha mãe comeu um falafael, sanduíche indiano de pão sírio com broto de feijão, e de sobremesa comeu um fluden, doce judaíco. Eu, criança sem criatividade que sou, acabei devorando um waffle muitíssimo american way of life e uma empadinha muito sem graça, tudo isso ao som do brasileiríssimo Caetano Veloso, cantando em inglês, claro. Se isso não é globalização, o que mais pode ser?
Agora, por favor, tirem-me uma dúvida: de onde vêm as empadinhas?
9.3.06
Montanha russa.
Dia desses parei para pensar nos possíveis sintomas de crescimento.
Tudo começou quando, de repente, me flagruei com dezoito anos. Foi assim, da noite pro dia, sem motivo e sem aviso prévio. A surpresa foi tão grande que duvidei, me besliquei, tentei fechar e abrir os olhos.
De certo não adiantou. Depois de dar de cara com o inevitável e perder as esperanças de cura, comecei a tentar descobrir os sintomas. Maioridade. Deve significar muitíssima coisa, desde os dez anos, quando os hormônios da futura adolescência começam a querer se mostrar, se começa a desejar os dezoito anos. Não tem como não ouvir um não dos pais e não pedir intimamente que o tempo passe logo e que a indepedência venha, junto com a tal maioridade. Mas o fato é que, em mim, nenhuma mudança se operou. Foi tudo muito sútil e indesejado.
Cheguei à conclusão, sorrindo intimamente, que não ultrapassei a linha de chegada na fase adulta. Contrariando a tudo e a todos, venho me arrastando pela pista, quase parando. Sorriso sapeca, mimada como aos seis anos, roupas coloridas e cabelos desgrenhados. Continuo perdida no meu mundo imaginário, de princesas e sapos.
Ouvi dia desses, numa conversa de botequeim, que a vida é uma montanha russa, com seus altos e baixos. Isso não muda, para crianças e adultos. A diferença é que quando se é pequeno, montanhas russas são divertidas. As quedas vertiginosas são sempre aliviadas pelos gritos, mal se chega ao chão e já se começa a subir. Crianças nunca vomitam em parques de diversão.
E quer saber? Aposto que consigo gritar mais alto que você e sem vomitar. Até mesmo nos loopings.
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