As terças são sempre dias mortos, perdidos ente o começo, o meio e o fim da semana. Especialmente aquela terça, foi morta. A manhã não quis chegar e nada foi colorido. O céu, então, como protesto, se pôs a chorar. Primeiro um choro pequeno, compassado e escasso, depois de lágrimas grossas e pesadas. Seria, portanto, um péssimo dia para conhecer o mundo. Seria, não fosse fevereiro.
Fevereiro é mês faceiro, já vem contrariando janeiro, que teima em querer começar o ano e nunca consegue. Todo mundo sabe que vida nova mesmo só começa depois do reinado de Momo. Feveiro é criança, que teima em nunca crescer, matando todos de inveja com seus vinte e oito dias costumeiros. Mas como é mês indeciso, se dá o luxo de às vezes ter vinte e nove, para fugir do tédio. Fevereiro é carnaval.
E assim era Ana: pedaço discreta, pedaço chorosa e inteira alegria. Passaria despercebida, entre águas correndo, se não tivesse um dia se posto a dançar. Se não tivesse se posto a mexer, com pés de lã e corpo de vento.
Quando Ana dança, o mundo se põe a assistir e qualquer salão fica pequeno, as pessoas ficam pequenas. Não é um fenômeno que se possa ignorar. Quando Ana dança, tudo ao redor se envergonha, se encabula, se esconde. Com movimentos ritmados, às vezes tortos, outras tantas vezes grosseiros, Ana existe.
