6.10.06

Ana e a dança.

Ana nasceu numa terça-feira chuvosa de fevereiro. Isso já diz muita coisa sobre ela.

As terças são sempre dias mortos, perdidos ente o começo, o meio e o fim da semana. Especialmente aquela terça, foi morta. A manhã não quis chegar e nada foi colorido. O céu, então, como protesto, se pôs a chorar. Primeiro um choro pequeno, compassado e escasso, depois de lágrimas grossas e pesadas. Seria, portanto, um péssimo dia para conhecer o mundo. Seria, não fosse fevereiro.

Fevereiro é mês faceiro, já vem contrariando janeiro, que teima em querer começar o ano e nunca consegue. Todo mundo sabe que vida nova mesmo só começa depois do reinado de Momo. Feveiro é criança, que teima em nunca crescer, matando todos de inveja com seus vinte e oito dias costumeiros. Mas como é mês indeciso, se dá o luxo de às vezes ter vinte e nove, para fugir do tédio. Fevereiro é carnaval.

E assim era Ana: pedaço discreta, pedaço chorosa e inteira alegria. Passaria despercebida, entre águas correndo, se não tivesse um dia se posto a dançar. Se não tivesse se posto a mexer, com pés de lã e corpo de vento.

Quando Ana dança, o mundo se põe a assistir e qualquer salão fica pequeno, as pessoas ficam pequenas. Não é um fenômeno que se possa ignorar. Quando Ana dança, tudo ao redor se envergonha, se encabula, se esconde. Com movimentos ritmados, às vezes tortos, outras tantas vezes grosseiros, Ana existe.

28.9.06

Perdão.

Hoje sonhei que te perdoava. Estamos sentados frente a frente, desconfortáveis, com olhares perdidos. Eu podia sentir o teu desespero mudo no ar, tocar nele, moldá-lo a minha maneira, fazer dele capricho meu. Você fingia tomar seu café e olhar pela janela. O café estava tão quente que era quase uma presença humana. Éramos, então, quatro: eu, você, o café e seu desespero, percebi nisso metáfora indizível. Mesmo no fim, mesmo em sonhos, nunca sozinhos.

Sádica, eu folheava o jornal displicentemente e jogava os cadernos pelo chão, bagunçando tudo de propósito, como que para te irritar pela última vez. Você, numa coragem súbita, quebra o silêncio. Apenas ergo os olhos, fitando-te friamente e volto a uma notícia tediosa, no caderno de política. Falava alguma coisa sobre um tratado político no Sul da África... você fala, fala, fala. Fala coisas que eu não entendo, ou não lembro. Diz que se arrepende, pede desculpas, promete o céu e felicidade eterna. Continuo a ler, termino mais uma página e a jogo no chão, quase com desprezo. Sentindo o corpo inteiro estremecer, numa raiva contida, você se limita a olhar com o canto do olho a mais uma provocação e ignora, permitindo-se um resto de orgulho.

Ao perceber que ainda somos nós - você, puro orgulho, eu, pura implicância - dou um meio sorriso, sabendo que não tenho o direito de me sentir feliz. Você, de repente, percebe tudo e dá um sorriso largo, criança em dia de natal. Surpresa, apenas arregalo os olhos, você ri do meu espanto. Mais alto. Gargalha. Contagiada, vou sentindo minha boca se abrir, tímida, até se escancarar. Sentimos o corpo tremer e rimos, em uma crise guardada, sem explicação, sem motivo.

Passamos tempo incontável assim, a rir sem motivos e, de repente, paramos. Pela primeira vez, nos olhamos de verdade, com olhos de quem ri, inocentes e carinhosos. Finalmente, nós dois entendemos e, calados, aceitamos nosso destino: orgulho e implicância. Nos perdoamos.

24.9.06

Saudade.

Chegou sem barulho, aos poucos, sem ser convidada. Com passos leves, feitos de algodão, invadiu a sala, ligou a televisão e fez da poltrona a sua morada. O dia se fez noite, a noite se fez madrugada e ela permaneceu.

As semanas levaram embora o estranhamento, o tempo transformou tudo em presença. A visita passou a ser hóspede e depois se descobriu moradora. Já abre o meu guarda-roupa e a geladeira, está no que visto, no que escuto e no que como.

Ao me olhar no espelho, percebi assustada, que não sei se é ela ou se sou eu o que me encara com olhos mortos de fotografia.

31.8.06

Estrelas

Quando te conheci, meus olhos eram criança. Menino assustado que vê besouro colorido e sente a barriga dar voltas, sem saber se nojo ou desejo. Fugi sem olhar para trás.

Um pouco depois, andando distraído pelas ruas, me vi ao teu lado. Antes de qualquer fuga, percebi, nos teus olhos, o efeito do tempo: me senti crescer e te vi anoitecer. Me despedi ao acaso e ao acaso te reencontrei. Percebi que a noite dos teus olhos começava a estrelar e só então me dei conta de que nunca mais poderia fugir.

26.8.06

?

Preciso me (des)encontrar. Num compasso leve, fora do ritmo, numa dança torta. Num pedaço de bolo, num cheiro perdido, no travesseiro amassado, na cama desarrumada. Espero me ter. Sozinha, em preto em branco, em technicolor, transbordando cores. Acompanhada, no céu, em baixo d' água, no chão. Quero me reconhecer. Em fotos, em espelhos, em lembranças. Em você.

25.8.06

Angels in America.

-No, please, stay. We can fix it. I pray for it. It is my fault, but I can fix it. You have to try too.
-When do you pray, what do you pray for?
-I pray for God to crush me, break me up into little pieces and start all over again.
-Please, don’t pray for that.
-I had a book Bible Stories when I was a kid and there was this picture that I’d look 20 times every day: Jacob wrestles with the angel. I don’t really remember the story or why they’re wresting. Just the picture. Jacob is young and very strong; the angel is a beautiful man with golden hair and wings, of course. I still dream about it, many nights. And it’s me… in that struggle. Fierce and unfair. The angel is not human and holds nothing back. So how could anyone human win? What kind of fight is that? It’s not just. Sail thrown down in the dist, your heart torn out from God’s, but you can’t not lose.
-In the whole entire world you’re the only person. The only person I love or have ever loved. I love you terribly. Terribly. That’s what’s so awfully, irreducibly real. I can up anything, but I can’t dream that away.
-Are you…? Are you really gonna have a baby?
-It’s my time and there’s no blood. I don’t really know. I suppose it wouldn’t be a great thing. Maybe I’m just not bleeding because I take too many pills. Maybe I’ll give a birth to a pill. I would change everything about pills-popping.