24.11.06

Aquela festa.

Joguei meu copo de vinho tinto na tua camisa branca, rodei com os calcanhares no salto fino prata e saí com o calor de todos os olhares vermelhos nas minhas costas. Quase fiquei violeta, mas não virei. Peguei um táxi amarelo, percorri as ruas cinzas e cheguei ao prédio marrom. Paguei ao motorista um dinheiro amassado, ausente de cores, por ser resto teu comigo.

17.11.06

Cor.

Na manhã de natal, Alice correu ansiosa pela casa até a árvore colorida que ocupava metade da sala de jantar. Com olhos rápidos, procurou o embrulho que tinha seu nome, no meio de tantas caixas coloridas, era tarefa difícil achar qualquer coisa. Quando achou, rasgou o papel de presente com fome e com mais fome ainda foi jogando pelo chão os restos da embalagem.

Depois de tanta euforia, não conseguiu esconder sua decepção ao encontrar uma pequena estrela transparente, pendurada por fio de nylon muito grande. Olhou de um lado, olhou de outro. Olhou de cima, olhou de baixo. No final das contas, não conseguiu se decidir sobre o que faria com aquilo.

- Cuidado, Alice. Isso é de vidro e pode quebrar.

Ainda por cima essa, para que serve um brinquedo que pode quebrar? Vidro? Pegou bem na pontinha do fio e suspendeu a estrela, de repente, quatro arcos-íris rodopiaram pela sala, ao perceber que era da sua estrela que eles vinham, Alice pensou assustada: "não é vidro, é cor".

26.10.06

Comunicação

Telê,
Essa casa já é pequena para nós dois, me sinto sufocada e
o ar me falta. Mesmo que você esteja na sala, sinto tua
presença asfixiante no banheiro, na cozinha, no quarto
de hóspedes e no escritório. Simplesmente não consigo
mais. Preciso me libertar.

Isaura.

Pendurou o bilhete na geladeira e saiu a passos lentos.
A resposta ficou pendurada na mesma porta branca e fria por semanas infinitas:

Isa,
Não se preocupe, abriremos novas janelas e construiremos
um quarto a mais. Combinamos tudo no jantar.
Telúbio.

9.10.06

Rodrigo e o céu.

Rodrigo é o tipo de pessoa que consegue passar despercebido e é fato que ele sempre gostou disso, se aperfeiçoando com o passar do tempo. A verdade é que ele feito de olhares e, ao contrário de um corpo bonito e um cabelo brilhante, os olhares são do mundo das sutilezas e causam estranheza para a maioria das pessoas.

A melhor descrição que se pode ter de Rodrigo vem daqueles olhos amendoados, espremidos, rápidos, quase contraditórios quando comparados ao resto do corpo. O olhar de Rodrigo é feito de pequenos momentos, de constante encantamento e eterno descobrir. Dentro daquelas duas pedrinhas brilhantes, o tempo parece não passar e é certeza que daqui a cinqüenta anos elas continuarão exatamente as mesmas: enormes na sua pequenez.

Desde sempre Rodrigou observou mais do que viveu, resultado de uma timidez sufocante que carrega consigo, timidez presa no canto da boca, causadora de sorrisos tortos e em eterna briga com a sua vontade de comer o mundo. Numa madrugada cálida, essa briga encontrou o final: a vergonha se apossou do corpo inteiro e a fome ficou com os olhos. Vocês podem até achar que a tal timidez tinha, enfim, levado a melhor, mas é de Rodrigo que estamos falando e, perto daqueles olhos, tudo é muito pouco.

6.10.06

Ana e a dança.

Ana nasceu numa terça-feira chuvosa de fevereiro. Isso já diz muita coisa sobre ela.

As terças são sempre dias mortos, perdidos ente o começo, o meio e o fim da semana. Especialmente aquela terça, foi morta. A manhã não quis chegar e nada foi colorido. O céu, então, como protesto, se pôs a chorar. Primeiro um choro pequeno, compassado e escasso, depois de lágrimas grossas e pesadas. Seria, portanto, um péssimo dia para conhecer o mundo. Seria, não fosse fevereiro.

Fevereiro é mês faceiro, já vem contrariando janeiro, que teima em querer começar o ano e nunca consegue. Todo mundo sabe que vida nova mesmo só começa depois do reinado de Momo. Feveiro é criança, que teima em nunca crescer, matando todos de inveja com seus vinte e oito dias costumeiros. Mas como é mês indeciso, se dá o luxo de às vezes ter vinte e nove, para fugir do tédio. Fevereiro é carnaval.

E assim era Ana: pedaço discreta, pedaço chorosa e inteira alegria. Passaria despercebida, entre águas correndo, se não tivesse um dia se posto a dançar. Se não tivesse se posto a mexer, com pés de lã e corpo de vento.

Quando Ana dança, o mundo se põe a assistir e qualquer salão fica pequeno, as pessoas ficam pequenas. Não é um fenômeno que se possa ignorar. Quando Ana dança, tudo ao redor se envergonha, se encabula, se esconde. Com movimentos ritmados, às vezes tortos, outras tantas vezes grosseiros, Ana existe.

28.9.06

Perdão.

Hoje sonhei que te perdoava. Estamos sentados frente a frente, desconfortáveis, com olhares perdidos. Eu podia sentir o teu desespero mudo no ar, tocar nele, moldá-lo a minha maneira, fazer dele capricho meu. Você fingia tomar seu café e olhar pela janela. O café estava tão quente que era quase uma presença humana. Éramos, então, quatro: eu, você, o café e seu desespero, percebi nisso metáfora indizível. Mesmo no fim, mesmo em sonhos, nunca sozinhos.

Sádica, eu folheava o jornal displicentemente e jogava os cadernos pelo chão, bagunçando tudo de propósito, como que para te irritar pela última vez. Você, numa coragem súbita, quebra o silêncio. Apenas ergo os olhos, fitando-te friamente e volto a uma notícia tediosa, no caderno de política. Falava alguma coisa sobre um tratado político no Sul da África... você fala, fala, fala. Fala coisas que eu não entendo, ou não lembro. Diz que se arrepende, pede desculpas, promete o céu e felicidade eterna. Continuo a ler, termino mais uma página e a jogo no chão, quase com desprezo. Sentindo o corpo inteiro estremecer, numa raiva contida, você se limita a olhar com o canto do olho a mais uma provocação e ignora, permitindo-se um resto de orgulho.

Ao perceber que ainda somos nós - você, puro orgulho, eu, pura implicância - dou um meio sorriso, sabendo que não tenho o direito de me sentir feliz. Você, de repente, percebe tudo e dá um sorriso largo, criança em dia de natal. Surpresa, apenas arregalo os olhos, você ri do meu espanto. Mais alto. Gargalha. Contagiada, vou sentindo minha boca se abrir, tímida, até se escancarar. Sentimos o corpo tremer e rimos, em uma crise guardada, sem explicação, sem motivo.

Passamos tempo incontável assim, a rir sem motivos e, de repente, paramos. Pela primeira vez, nos olhamos de verdade, com olhos de quem ri, inocentes e carinhosos. Finalmente, nós dois entendemos e, calados, aceitamos nosso destino: orgulho e implicância. Nos perdoamos.