15.8.06

Queijo de copo e toalha molhada.

Você foi embora numa manhã quente e ensolarada, como que para quebrar todos os clichês de despedidas frias. Saiu também sorrindo, com poucas certezas, como quem vai comprar pão e já volta. Ao me ver só, caminhei lentamente pela casa, abrindo as janelas e recolhendo restos seus.

Em uma caixa grande, joguei os teus pedaços: porta-retratos, cartas antigas, ímãs de geladeira, souveniers. Fechei tudo com fita adesiva e tentei esquecer em um canto. Mas você persistiu, fez questão de se misturar em mim, nas minhas coisas, músicas, sonhos. Abri a caixa e me fechei, afundando numa cadeira, exausta.

O passar dos dias foi mais lento do que o normal, acelerou aos poucos e, enfim, correu. Numa noite fria, me dei conta da sua ausência em mim. Procurei, me estranhei e só então entendi. A verdade, meu bem, é que tenho medo de lhe deixar ir. De não ter mais os seus sinais e o meu sofrimento. Num ato de desespero abri a caixa nunca fechada. Procurei a dor da sua presença, das nossas memórias, do meu passado. Não achei, me peguei sorrindo. Me vi só.

Andei pela casa, solitária. Lembrei das brigas e joguei toalhas no chão, tirei o queijo de copo da geladeira, recoloquei tudo no lugar, forjei você como pude. Não adiantou.

14.8.06

Para frente.

Ela vai mudar, vai crescer, não se reconhecer, vai sentir nojo do que já foi. Vai cortar o cabelo, mudar de namorado, trocar o sotaque. Vai se olhar no espelho e sentir orgulho, encurtar a saia e perder a vergonha. Vai se arrepender, voltar um pouco atrás. Vai se embriagar, tentar fugir.

Ela vai, sobretudo, não saber onde ir e paralisar no tempo.

1.8.06

Da arte dos encontros.

Sempre me senti dona das madrugadas. Do silêncio, da calmaria, do vento frio, das estrelas, da escuridão, da sombra dos postes, do barulho dos poucos carros, das ruas vazias de gente. A falta de sono me deixa construir meu próprio tempo, fugir da correria do dia, respirar fundo, me visitar e afundar na minha melancolia.

Mas descubro que, assim como sou rainha da minha madrugada, existem reis e acabo vendo meu reino sendo dividido. Aos poucos, sutilmente, sem querer. As solidões se encontram e a madrugada acaba passando do silêncio ao samba, da calmaria às risadas, o vento frio vira brisa, os barulhos dos carros passam despercebidos. Sobram as estrelas, as sombras, as ruas vazias e a escuridão.

E é assim que a madrugada passa em ritmo de samba.

26.6.06

Despedidas.

-Estou indo embora.
-Certo, tchau.
-Digo, estou indo embora de vez. Para nunca mais, sabe?
-Certo, eu entendi quando você disse isso, há dez minutos atrás.
-E você não tem nada para me dizer?
-Tenho: ao sair, por favor, tranca a porta e joga a chave pela janela da frente, depois a apanho.

29.5.06

Memórias.

Os cheiros me invadem sem perguntar e me carregam pra longe no tempo, para uma época específica e todos os sentimentos de então, devastando as barreiras e linhas do tempo. Nessas horas, abro bem as narinas e aspiro o ar com força, numa tentativa de viver tudo de novo com mais força.
É um processo meio masoquista, isso de reviver emoções superadas, mas, ao mesmo tempo, irresistível e inevitável. E é assim também que me pego sorrindo, boba e sozinha num quarto. Você nunca sabe ao certo aonde está sendo levada e o melhor mesmo é se deixar ir. Acontece que os cheiros estão em todo lugar: dentro de livros, de perfumes antigos, em alguma comida, em uma roupa guardada demais ou numa marca de desodorante que tinha sido esquecida.
Todos os momentos e todas as pessoas importantes têm um cheiro bem definido na minha memória, às vezes mais definidos que as imagens ou sons. Na verdade, nunca sei se as minhas memórias olfativas são derivadas de coisas reais ou apenas da minha imaginação, de suposições, romantismo e especulação. Metade da minha vida só existe na minha cabeça e a outra metade é toda alterada para ficar mais fácil de aguentar.

26.5.06

Bipolaridade.

Até bem pouco tempo conhecida como psicose maníaco-depressiva, a doença bipolar do humor é caracterizada por períodos de um quadro depressivo, geralmente de intensidade grave, que se alternam com períodos de quadros opostos à depressão, isto é, a pessoa apresenta-se eufórica, com muitas atividades, às vezes fazendo muitas compras ou efetuando gastos financeiros desnecessários e elevados, com sentimento de onipotência, quase sempre acompanhados de insônia e falando muito, mais que seu habitual. Esse quadro é conhecido como mania.
Existem três outras formas através das quais a doença bipolar do humor pode se manifestar, além de episódios bem definidos de mania e depressão.
Uma primeira forma seria a hipomania, em que também ocorre estado de humor elevado e expansivo, eufórico, mas de forma mais suave. Um episódio hipomaníaco, ao contrário da mania, não é suficientemente grave para causar prejuízo no trabalho ou nas relações sociais, nem para exigir a hospitalização da pessoa.
Uma segunda forma de apresentação da doença bipolar do humor seria a ocorrência de episódios mistos, quando em um mesmo dia haveria a alternância entre depressão e mania. Em poucas horas a pessoa pode chorar, ficar triste, sentindo-se sem valor e sem esperança, e no momento seguinte estar eufórica, sentindo-se capaz de tudo, ou irritada, falante e agressiva.
A terceira forma da doença bipolar do humor seria aquela conhecida como transtorno ciclotímico, ou apenas ciclotimia, em que haveria uma alteração crônica e flutuante do humor, marcada por numerosos períodos com sintomas maníacos e numerosos períodos com sintomas depressivos, que se alternariam. Tais sintomas depressivos e maníacos não seriam suficientemente graves nem ocorreriam em quantidade suficiente para se ter certeza de se tratar de depressão e de mania, respectivamente. Seria, portanto, facilmente confundida com o jeito de ser da pessoa, marcada por instabilidade do humor.